• Wix Facebook page
  • Instagram Social Icon

OBJECTO OBJECTO OBJECTO

livro -  STET

Texto de Carlota Gonçalves

 

“O livro, Objecto Objecto Objecto, de Fernando Marante, é uma edição de autor limitada a 50 exemplares, que se reflecte a si próprio, enquanto objecto de uma experiência singular de desdobramento e multiplicação de sentidos.

A lógica presente nesta obra centra-se na auto-referencialidade de um livro-objecto que se auto-representa, como sujeito activo de uma reinvenção infinita que se materializa folha a folha.

As imagens que o compõem vêm do trabalho Heterotipias, realizado pelo artista, e por ele recompostas e retrabalhadas, para se desenvolverem num todo deshierarquizado, que se objectiva ou subjectiva, à medida de cada olhar. Cada olhar pode então percorrer este invulgar objecto-livro, ou livro-objecto, à sua vontade e direcção, como uma descoberta incessante e altamente lúdica.

Delicado e forte, substancial e leve, Objecto Objecto Objecto, desenvolve-se de uma forma indisciplinada nos materiais (uso de papéis de várias naturezas), e nos conteúdos que se vão formando, desformando, numa rebeldia derivativa, que repete padrões gráficos e imagens modelares, abrindo um grande campo de possibilidades de inscrição e reinscrição das coisas.

A “coisa” é o próprio livro e tudo existe nele, dentro e fora. A capa é uma entrada e talvez uma saída, para entrar outra vez. Ela contém segredos (desdobrar a badana e espreitar o interior da capa), lança as “linhas” da proposta, e a geometria da figura entra no interior, o padrão repete-se, fragmenta-se, fora do enquadramento, nas bordas da página, extrema-se como presença, obsessiva e subtil, ao mesmo tempo. Também encontramos o artista dentro do livro, ele próprio o segura, como coisa palpável, coisa existente, admirável mise en abyme que se empreende e projecta de forma livre e expansiva.

A folha, (pétala), é o motivo que Fernando Marante repete, e que faz viver de muitas formas na imagem, - em grande, pequeno, e médio plano - em trânsito pelas páginas, real e imaginária, presa e livre, abstracta e concreta, metamorfoseada, enfim, inconformada.

A natureza auto-representativa, de Objecto Objecto Objecto, é reveladora, tem a força da sua materialidade. O convite narrativo é ao mesmo tempo intrínseco e extrínseco, a matéria visual apelativa e háptica convida ao toque (sem querer estragar).

Muitas histórias podem ali estar, o seu estado mutável fazem a sua permanência, dá-nos matéria e material cuidado, concebido por uma morfologia inesperada, cosida à mão, feita pelas mãos, peça a peça, livro a livro. No interior, ou no miolo central, há mais um segredo, uma miniatura, criatura insondável, a explorar, a folhear...

Há  muita coisa neste objecto que é um livro, neste gesto artesanal e múltiplo, tocável e impermanente, fugidio e muito presente.

É preciso descobrir Objecto Objecto Objecto!”.